"Eu também! Os relacionamentos não têm nada a ver com poder. Nunca! E um modo de evitar a vontade de exercer poder é
escolher se limitar e servir. Os humanos costumam fazer isso quando cuidam dos enfermos, quando servem os idosos, quando se relacionam com os pobres, quando amam os muito velhos e os muito novos, ou até mesmo quando se importam com aqueles que assumiram uma posição de poder sobre eles.
— Bem falado, Sarayu — disse Papai, com o rosto luzindo de orgulho. — Eu cuido dos pratos depois. Mas primeiro gostaria de ter um tempo para as devoções.
Mack teve de conter um risinho diante da idéia de Deus fazendo orações. Imagens de devoções familiares de sua infância vieram se derramar em seu pensamento. E não eram exatamente boas lembranças.
Com freqüência consistiam em um exercício tedioso de dar as respostas certas, ou melhor, as mesmas velhas respostas às mesmas velhas perguntas sobre histórias da Bíblia e depois tentar ficar acordado durante as orações exaustivamente longas de seu pai. E, quando o pai tinha bebido, as orações da família sempre se tornavam um terrível campo minado, onde
qualquer resposta errada ou um olhar distraído provocava uma explosão. Ficou esperando que Jesus pegasse uma velha versão da Bíblia.
Em vez disso, Jesus estendeu as mãos sobre a mesa e segurou as de Papai, com as cicatrizes agora claramente visíveis. Mack ficou sentado, em extremo fascínio, vendo Jesus beijar as mãos do Pai, depois olhar fundo nos seus olhos e finalmente dizer:
— Papai, adorei ver como hoje você se tornou completamente disponível para assumir a dor de Mack e deixar que ele escolhesse seu próprio ritmo. Você o honrou e me honrou. Ouvir você
sussurrar amor e calma no coração dele foi realmente incrível. Que alegria imensa ver isso! Adoro ser seu filho.
Embora Mack se sentisse um intruso, ninguém pareceu se preocupar e, de qualquer modo, ele não tinha idéia de para onde ir. Presenciara expressão de tamanho amor parecia
deslocar qualquer entrave lógico e, ainda que ele não soubesse exatamente o que sentia, era muito bom.
Estava testemunhando algo simples, caloroso, íntimo e verdadeiro. Isso era sagrado. A santidade sempre fora um conceito frio e estéril para Mack, mas isso era diferente. Preocupado em não fazer qualquer gesto que perturbasse aquele momento,
simplesmente fechou os olhos e cruzou as mãos. Ouvindo atentamente de olhos fechados, sentiu Jesus mexer a cadeira. Houve uma pausa antes que ele falasse de novo:
— Sarayu — começou Jesus com suavidade e ternura —, você lava, eu enxugo.
Os olhos de Mack se abriram rapidamente, a tempo de ver os dois sorrirem afetuosamente um para o outro, pegarem os pratos e desaparecerem na cozinha. Ficou sentado alguns minutos sem saber o que fazer. Papai tinha ido a algum lugar e os outros dois estavam ocupados com os pratos. A decisão foi fácil. Pegou os talheres e os copos e levou-os para a cozinha. Assim que entrou, Jesus lhe jogou um pano e, enquanto Sarayu lavava os pratos, os dois começaram a enxugar.
Sarayu começou a cantarolar uma música evocativa que ele havia escutado Papai cantar. Mais uma vez a melodia mexeu no fundo de Mack, despertando lembranças e emoções. Se pudesse permanecer ouvindo aquela canção, aceitaria ficar enxugando os pratos pelo resto da vida.
Cerca de 10 minutos depois haviam acabado. Jesus deu um beijo no rosto de Sarayu e ela desapareceu no corredor. Em seguida ele sorriu para Mack"
Nenhum comentário:
Postar um comentário